O seu gesto constituía uma maneira subtil de não esquecer que também se havia de transformar em pó. (Melville)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Experiência 34: a vida menor que a imaginação?


(fotografia GP)
[Braga - 2013]


Os homens usaram de palavras 
que jamais compreenderam.
A felicidade, por exemplo.
Jamais alguém a descreveu sem um bocejo,
ou nos livros de missa explicaram o céu.
Existiram no tempo alguns deslizes:
a vida era menor que a imaginação.

(in O tempo das estátuas, Jorge Guimarães)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Experiência 32: e se chover?




(Fotografia GP)
 [Braga - 2013]

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Experiência 31: do terror




     


Descobri como as caras desabam,
como o terror fita as pálpebras,
como o sofrer escreve em rostos
numa escrita cuneiforme,
como cabelos negros ou louros
se tornam prata em uma noite,
o sorrir se apaga em lábios submissos,
e o medo treme num riso seco. (…)

in “requiem – 1935-1940”, Ana Akhmátova.







(Fotografia GP)
 [Braga - 2012]

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Experiência 30: da obscura brecha do universo



(fotografia GP)
                                                                                                                                                                            [Braga - 2012]

Não sei, terei sonhado?, isto para mim é King-Crimson num túnel de Braga. Não sei, terei sonhado?

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Experiência 29: gelo



Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

Fire and ice, Robert Frost









(fotografia GP)
[Braga - 2013]


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Experiência 26: últimas interrogações



(fotografia GP)
[Braga - 2012]


Antes que caia a noite total
havemos de estudar as manchas na parede:
umas parecem plantas
outras assemelham-se a animais mitológicos.
Hipogrifos,
               Dragões,
                              Salamandras.
Mas as mais misteriosas de todas
São as que parecem explosões atómicas.

in Manchas na parede, Nicanor Parra.

domingo, 13 de janeiro de 2013

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Experiência 24: da cidade redundante - para que qualquer coisa se fixe na mente


       (fotografia: GP)
        [Braga -  2012]


Dir-se-ia (n)o cu de Judas, onde o Judas perdeu as cuecas, ou, numa variação tendente para a redundância, onde o Judas perdeu as botas, se ainda as tinha, mas não, fica mesmo aqui ao lado, cinco minutos a penantes do centro engalanado de Braga. São estes vazios, estes despojos, que nos recordam a sabedoria de Marco Polo quando este diz a Kublai Kan:
Talvez do mundo só tenha restado um terreno vazio coberto de imundícies, e o jardim suspenso do palácio do Grão Kan. São as nossas pálpebras que os separam, mas não se sabe qual está dentro e qual está fora. (in “As Cidades Invisíveis”, Italo Calvino)
O que Polo talvez não soubesse é que também esse jardim suspenso e esse palácio um dia desapareceriam. Ou talvez o soubesse. Como escreveu Calvino, a memória é redundante: repete os sinais para que a cidade comece a existir. Talvez seja isso.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Experiência 23: e já agora um bom ano



(GP)
[Braga -  2012]


Amava o deserto, os hortos queimados, as lojas decadentes, as bebidas amornadas. Arrastava-me pelas ruelas fétidas e, de olhos fechados, oferecia-me ao sol, deus de fogo.

in "Uma temporada no Inferno", Arthur Rimbaud.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Experiência 22: e vinho verde











 (GP)
  [Braga -  2012]










Fiz um pacto com a prostituição para semear a desordem nas famílias. Recordo-me da noite que precedeu esta perigosa ligação. Vi um túmulo à minha frente. Ouvi um pirilampo, tão grande como uma casa, que me disse: «Vou alumiar-te. Lê a inscrição. Não é de mim que vem esta ordem suprema» (...)

in "Os cantos de maldoror", Conde de Lautréamont.
                                                              

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Experiência 21: a missão das folhas


  (GP)
  [Braga -  2012]

Naquela tarde quebrada 
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas 
é definir o vento

"A missão das folhas", Ruy Belo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

sábado, 29 de dezembro de 2012

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Experiência 17: entre linhas








A lei da quadrilha é clara, todos os dançarinos a conhecem, é válida para todos os tempos. Mas um qualquer daqueles acasos da vida que nunca deviam ter acontecido, mas estão sempre a acontecer, faz-te ficar sozinho entre as duas linhas. Talvez isso provoque confusão nas próprias linhas, mas isso não o sabes, tu só sabes da tua desgraça.

In Fragmentos, Kafka

















                           (GP
                                 [Braga -  2012]

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Experiência 15: subúrbios a leste do paraíso



(GP)

[Braga - 2012]


(...)
Esta cidade não tem pássaros – penso com o corpo todo
terá um ou dois e os gatos já não sonham com eles
perdidos numa genética de recluso
Contemplo cães a vaguear idiotia de quem não se recorda
de como é ser cão e quase humano...

in subúrbios e abrigos, Alfredo B.A 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Experiência 14: esquentamento


(GP)
[Braga - 2012]


E deveríamos tornar obrigatório
por decreto municipal
o uso da mulher-tronco para os pobres

in Barnum, Boris Vian.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Experiência 13: encontro(s) desalojado(s) entre o silêncio excessivo


(GP)
[Braga - Nov. 2012]


(...)
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora há muito não é de outra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato.

in "discurso sobre a reabilitação do real quotidiano", Cesariny.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Experiência 12: poesia do invisível


(GP)
[2012]


O primeiro lugar: uma sala de espera da segurança social. O segundo lugar: este onde se recorda uma sala de espera da segurança social. Dois lugares, um livro. E uma imagem dentro de uma imagem. O livro, esse:

Eram os primeiros minutos do amanhecer. Simone pensou que, se nas alturas não havia nada de interessante, teria de o procurar em terra firme. Ou já não precisaria de procurar nada? Ficou na cama espreguiçando-se lentamente, com uma preguiça infinita, a observar as partículas de pó que pairavam num raio de sol dentro do seu quarto às escuras. E foi então que ouviu o grito. Alguém tinha gritado no amanhecer, numa casa próxima, talvez no seu próprio prédio, talvez no seu próprio quarto. Para Simone, foi o mais semelhante a uma catarse, porque sentiu a sensação de que no seu despertar ia existir um antes e um depois daquele grito. Logo a seguir, viu que não seria assim. O grito tinha passado e continuava tudo na mesma, cinzento e monótono como antes. Regressou ao seu tédio e chegou a uma firme conclusão, sem que previamente se tivesse dedicado a procurá-la. A partir daquele momento, enfrentaria directamente a verdade e suportaria o vazio e, por conseguinte, aceitaria a morte. Bem vistas as coisas, pensou, a verdade encontra-se do lado da morte, sempre o disse. Logo depois, voltou às partículas de pó, àquela espécie de poesia do invisível. Irei mais além da preguiça do infinito, disse para consigo. Era essa a sua meta na plenitude do seu magnífico despertar de morta. Porque tinha despertado morta, espreguiçando-se suavemente ociosa, esplendorosa.

“Um tédio magnífico” (in Exploradores do Abismo), Enrique Vila-Matas. Tradução de Jorge Fallorca. Teorema.