O seu gesto constituía uma maneira subtil de não esquecer que também se havia de transformar em pó. (Melville)

domingo, 2 de dezembro de 2012

Experiência 8: rasgão de luz


(fotografia: GP)
[Ofir - Dez. 2012]


o sol enterra-se nas areias.
(…)
tento encontrar espaço para a lucidez do meu silêncio.

Al Berto in "Horto de Incêndio"

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Experiência 7: "Não acredito em Deus, mas sinto a sua falta"*...?



(fotografia: GP)
[2012]


Um desses dias marcados com a partitura da tristeza. Um desses dias marcados para a tristeza. E ainda assim, não nos lembrámos de retirar a etiqueta aos dias, julgámo-los por cima, de alto, de lés-a-lés, como se fossem certos, seguros, como se fossem declaradamente escritos para nós. Como se nós fossemos os únicos. Cada dia é um dia: único. Cada um de nós é um, ou como se diz por aqui: cada um é como cada qual

*Julian Barnes, in "Nada a temer". 

domingo, 25 de novembro de 2012

Experiência 6: fall


(fotografia: GP)
[2007]


Um entardecer devolve-nos a esperança de que, afinal, tudo imerge na escuridão. Um entardecer é um ainda não sussurrado ao dia, aos dias. Em cada dia. Talvez fosse nisso que ele pensava, anos atrás, quando se debruçou ligeiramente e fixou o momento, aquele momento, numa fotografia. Já não é o mesmo, inevitavelmente, não pode ser o mesmo que escreve estas linhas, noutro entardecer de outro Outono. Na verdade: também no Outono não se aprende a morrer.  

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Experiência 5: janelas


(fotografia: GP)
[Londres - Jan. 2012]


Podemos perder-nos num parque. Podemos continuar perdidos. Podemos ser engolidos por uma multidão em Oxford Street, imaginando De Quincey à procura da sua amada (de facto foram duas). Podemos descer ao centro da terra com um livro de Verne nas mãos, qual paleontólogos de meia-tigela. Podemos roubar carris suficientes para fazer mais um trajecto alternativo Porto-Lisboa. Podemos encontrar o século XIX numa esquina. Podemos facilmente imaginar o Sebald a imaginar-nos algures. Podemos descer a um bar e entrar nas catacumbas da memória. Podemos encontrar um mapa de uma cidade que já não existe. Londres sabe disso. Londres sabe-a toda. 

domingo, 18 de novembro de 2012

Experiência 4: o túnel


(fotografia: GP)
[Braga - Nov. 2012]


A beleza por vezes encontra-se não procurando. Os túneis ensinam-nos a escapatória. A fuga. A passagem subterrânea é uma ponte subterrânea. Os túneis unem. Neles se esconde gente. Neles se encontra gente. Os túneis são tecto. São lugares.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Experiência 3: pelas ruas, ao entardecer


(fotografia: GP)
[Braga - Nov. 2012]


Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício (...)
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

De "O Sentimento dum Ocidental". Cesário Verde

domingo, 11 de novembro de 2012

Experiência 2: sítios de poesia


(fotografia: GP )
[Ponte da Barca - Out. 2012]



Se vós, Musas suaves,
Neste meu triste peito
Algumas ledas rimas inspirastes,
Se, com doces e graves
Acentos, o conceito
Que tinha dentro nele declarastes;
Se vos não desprezastes
De levantar meu canto

Diogo Bernardes (Ponte da Barca – séc. XVI)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Experiência 1: temos andado assim


(fotografia: GP)
[Braga - Out. 2012]
(…) Não as ávidas ruas,
incómodas pela turba e pela azáfama,
mas sim as ruas monótonas do bairro,
quase invisíveis de tão habituais,
enternecidas de penumbra e ocaso,
e as outras mais longe,
alheias, de árvores piedosas
onde austeras casinhas mal se aventuram,
enevoadas por imortais distâncias,
perdendo-se em recôndita visão
de céu e de planície(…)

“As ruas”. J.L. Borges

terça-feira, 6 de novembro de 2012

(...)

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Perto do Fim



Novembro (2011), Braga

domingo, 23 de outubro de 2011

Verosimilhança nula

Um olhar da rua do Avioso, Santa Maria do Avioso, Maia (Outubro 2011)

Mas com quê? O país assemelha-se a Portugal. O tal jardim: afeiado nos pormenores. Confuso nas razões. E multiplicando-se em requintes de esquecimento. De qualquer forma ainda nos surpreende.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

À moda antiga

Hard Club, Porto (01-10-11)

Em 1998, talvez 1999, recordo uma francesinha especial no café Luso, 8 ou 9 príncipes, e uma visita ao antigo mercado Ferreira Borges onde decorria uma festa do livro em saldo. Comprei oito. E não os perdi, mesmo após uma visitinha ao falecido Meia Cave. Este sábado, encaixei primeiro na Ribeira uns príncipes, e depois uma francesinha especial, muito bem acompanhado, diga-se, antes de ruminar o fartote num concerto do Peter Murphy no Hard Club, sito no antigo mercado Ferreira Borges, devidamente reciclado, mas apenas por dentro. O cujo merece um dito: nascido em 1885, para fazer esquecer o irmão da Ribeira, parece que foi tudo e talvez mais um pouco. Está risonho e patusco, de cara lavada e frontaria animada por uma esquadra de polícia, com a breca…

domingo, 18 de setembro de 2011

Braga: fora cá dentro


FMI: festival de Música Independente, Liceu Sá de Miranda, Braga (17-09-11)
Noite

Estádio AXA em Braga (11-09-11)
Jogo: Braga-Gil Vicente

Obviamente na falange adepta do Gil Vicente.

Postal

Ofir, Fão (14-05-11)

O primeiro dia de praia a sério foi em Maio.

domingo, 4 de setembro de 2011

Escrevia silêncios e fixava vertigens

Algures à entrada da Cidade de Braga ( Setembro 2011)

Posso estar enganado, mas Rimbaud não estaria por ali. E se estivesse teria escrito?:


"Lois des oiseaux, des troupeaux, des villageoises,
Que buvais-je, à genoux dans cette bruyère
Entiurée de tendres bois de noisetiers,
Dans un brouillard d' après-midi tiède et vert?"

domingo, 28 de agosto de 2011

Estações

Vila Nova de Cerveira (Janeiro 2011)

Sempre que passo em Vila Nova de Cerveira, recordo-me da lontra solitária que conheci no Aquamuseu do Rio Minho, penso que por volta de 2006, pouco tempo após este ser inaugurado. Interrogo-me se ainda será viva, e se estará (ainda) sozinha.
A confluência em tão curto espaço do rio, do mar e monte, desperta-nos um desejo absurdo de…viver.


Vila Nova de Cerveira (Agosto 2011)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Curvas

Buarcos, 13-08-11

Gosto de nuvens. Gosto de mar. Gosto de curvas: a curva verde em Alvalade; a curva da praia de Buarcos quando está pouca gente…

domingo, 24 de julho de 2011

Austerlitz

É claro que a fachada principal da gare de Austerlitz, eventualmente, daria uma fotografia interessante. O problema quando se chega à gare é saber onde encontrar seja o que for: as linhas de metro correspondentes; as linhas do comboio RER (comboio urbano) ou as linhas de comboio regional e nacional, dado o gigantismo e o emaranhado de cais dispostos em vários andares. Construída em 1840 e ampliada nas décadas de 1860 e 1870, interessou-me pelo seu belíssimo nome - devendo-o a uma batalha ganha por Napoleão em Austerlitz (hoje Slavkov u Brna) na República Checa, também conhecida por Batalha dos Três Imperadores – e por um livro homónimo de W.G. Sebald. Em “AUSTERLITZ” de Sebald, Austerlitz chega à gare de Austerlitz vindo da Bastilha e entra, segundo creio, literalmente pela fachada superior de uma das partes do edifico. Talvez esta.

Uma perspectiva da Gare de Austerlitz, Paris (Julho 2011)

A gare é hoje uma amálgama de estilos com telhado e estrutura novecentista. Não sendo um lugar hostil, transmite-nos uma sensação de inquietude, dir-se-ia inexplicável. Mas tudo se torna mais fácil depois de um longo passeio ali ao lado no Jardin des Plantes, ou por contraste, após um passeio junto ao complexo composto de 4 edifícios que constituem a nova Biblioteca nacional de França, ou Bibliothèque François Mitterrand, inaugurada em 1996, conjunto esse que, pelo seu gigantismo e manifesta fealdade, dificilmente se imagina como um corpo que albergue livros no seu interior, eventualidade que não conseguimos contrariar, após quilómetros de fainas em seu redor. Austerlitz, também andou por aqui. E passeou, segundo creio recordar, com uma senhora no Jardin des Plantes. Austerlitz é a demanda da memória. Austerlitz poderíamos ser nós.


Biblioteca François Miterrand, Paris (Julho 2011)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Já passou um ano


Londres, zona de Shoreditch, Julho 2010

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fartos de enganos

in Zebreiros, Foz do Sousa (15-06-11)

Uma curva e um olhar assim ao Douro, penso: gosto disto.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Portugal em festa II

São João da Madeira, Junho 2011

Sempre gostei da antecipação da festa. Um gajo às vezes nem dormia. Aprecio esse vazio, a preparação, os pequenos nadas. Depois fica o vazio também. Os co(r)pos e as memórias dispersas do dia seguinte.

domingo, 12 de junho de 2011

O 10 de Junho e as bandeiras dos nossos avós

Castelo de Lanhoso, (10-06-11)

Aqui estou, bem no cimo do Monte do Pilar, quase deitado no – supostamente - maior monólito granítico de Portugal. Um santuário substituiu no séc.XVIII parte do castelo, alimentando-se da sua pedra. Preferiríamos o castelo todo, e mais houvesse. Entretanto, respira-se bem, entre pensamentos elevados e duas ou três famílias passeantes, onde o decoro minhoto se traduz em relações familiares de enlevado carinho: “olha-me aquele filho-da-puta, que não para quieto”- dizia a avó visivelmente orgulhosa sobre o traquina do neto…