A confluência em tão curto espaço do rio, do mar e monte, desperta-nos um desejo absurdo de…viver.
Vila Nova de Cerveira (Agosto 2011)
Vila Nova de Cerveira (Agosto 2011)
Gosto de nuvens. Gosto de mar. Gosto de curvas: a curva verde em Alvalade; a curva da praia de Buarcos quando está pouca gente…
Sempre gostei da antecipação da festa. Um gajo às vezes nem dormia. Aprecio esse vazio, a preparação, os pequenos nadas. Depois fica o vazio também. Os co(r)pos e as memórias dispersas do dia seguinte.
Aqui estou, bem no cimo do Monte do Pilar, quase deitado no – supostamente - maior monólito granítico de Portugal. Um santuário substituiu no séc.XVIII parte do castelo, alimentando-se da sua pedra. Preferiríamos o castelo todo, e mais houvesse. Entretanto, respira-se bem, entre pensamentos elevados e duas ou três famílias passeantes, onde o decoro minhoto se traduz em relações familiares de enlevado carinho: “olha-me aquele filho-da-puta, que não para quieto”- dizia a avó visivelmente orgulhosa sobre o traquina do neto…
Chega-se a Arganil, por exemplo, percorrendo o IP3 e a IC6, viagem de vista agradável e sempre radical no governo do veículo que nos transporta. Parece que as tropas napoleónicas andaram por aqui, o que se confirma pelo elevado número de ruínas que rodeiam a vila antiquíssima. Ali, o Mont’Alto chama-nos, enquanto percorremos com o olhar e o corpo, o Largo de Ribeiro de Campos, rodeado de casario antigo, com alguns exemplares belíssimos abandonados. Percorrendo as ruas estreitas acavaladas de casas, não pude deixar de pensar num centro histórico de uma cidade grande. Não havia dúvida, estava em Portugal. E aproximava-se a festa.
Os ficheiros não são secretos, apenas desconhecidos. Apesar do parque, moderno derivado a ser tecnológico, apreciamos o vazio e as espécies vegetais que crescem à toa. Por fora todo um mundo, a bem dizer: agricultura; pistas para passeadores e biclas; casas e alguns espaços avulso. Um arranjo limpinho, tipo K.
Casa de xisto, Santiago de Bougado, Trofa (16-05-11)
Gosto de casas. E mesmo estando em movimento, sou menino para parar e ficar a olhar para uma. As casas sempre tiverem um sentido, ou mesmo vários, para serem assim ou assado. Entretanto, optamos por fechar os pensamentos em gaiolas, e compramos casas para provar que somos capazes de nos endividar e isso, claramente, será o mais próximo que estaremos do sublime….
Final dos anos 80 (início de 90) do século passado: costumávamos ir ao Porto comprar as Doc Martens e sapatos de poupa, ouvir discos e andar a pé. Um dia passou-me pela cabeça ser fotógrafo por causa das ruas e dos edifícios do Porto, e assim por lá andávamos a planear enquadramentos com as mãos em concha e uma máquina imaginária. Admirava aquela decadência orgulhosamente despreocupada, irmanada à chuva e aos pombos, sempre envolta num manto cinzentíssimo que se dispersava pelo rio, que eu imaginava, aliás, sempre granítico.
Poderia ser das flores. Mas é apenas das tulipas. Não que se vislumbrem quaisquer indícios daquelas em geral ou destas em particular, para bem da minha rinite alérgica. Simplesmente um caos urbanístico, onde quintais e envergonhados campos se misturam com casas e prédios, muros, ruas e ruelas, sem oportunidade sequer de se poder olhar para cima. Recordo-me de pensar:”para onde raio foram as abelhas?”…
Inesquecível observar o Castelo do parque da Trincheira. Imperdível uma visita ao castelo com as suas torres e o casario que o rodeiam, com vista para a Serra da Marofa. E depois o ar, o espaço aberto. A calmaria. Além fica Espanha, e por perto, Almeida, Trancoso, Guarda. Imperdoável, o esquecimento.
Abril 2009: a crise ainda tinha outro nome. Só a chegada à casa daria uma investida cinematográfica experimental, com honras
Costa do Valado é uma estrada rua, cingida por algumas indústrias, habitações, campos e a sempre presente bomba de gasolina. Costa do Valado, presume-se, já terá sido uma igreja com a sua praça, aí mesmo onde começa a rua direita que nunca se sabe onde acaba; aí mesmo em frente ao actual edifício dos correios, ao lado do mais recente lugar social das nossas dores: a farmácia.
Fiquei sem saber se aquele avião a jacto na publicidade antiga junto à igreja representaria - ou se alguma vez terá representado - um lugar diferente.
Rua da Alegria, Porto (04-04-11)
Às vezes perco-me pelas ruas, e é-me sempre difícil voltar à tona. Não é necessário cartografar todos os momentos, mas penso, julgo que como W.G. Sebald, que precisamos de um presente com memória e de visitar a vida de vez em quando.
Recordamo-nos da JAE, que entretanto terá mudado de nome. O caminho, a descer, sempre encerrou o mesmo modelo de desenvolvimento(?), ideal para cowboys no asfalto.
Assim vai o nosso país: decrépito e em inclinação inexorável.
Primeiro era o hipermercado - a anteceder a urbanização. Depois acudiram mais prédios. Depois ainda, mais prédios a ocuparem os espaços prometidos para o estacionamento e os tais jardins que nunca chegaram. Entretanto chegou mesmo foi o centro comercial precedendo mais prédios e a circular com as suas rotundas. Tudo isto sem qualquer hierarquia de vias, passeios, bermas ou praças. Enfim, após o repasto, caiu do céu um tal retail parque, sem que ninguém se lembrasse dos acessos. Finalmente, chega-nos o hospital, lá bem no cimo, como os antigos conventos, talvez para estar mais próximo dos deuses. E constroem-se no meio, ou melhor, por cima disto tudo os acessos necessários. Bastaria apenas um passeio matinal, por exemplo, pela rua Quinta da Armada, para perceber a amálgama alucinada que infesta toda esta área: rua sem passeios, estreita, muralhada literalmente por casas e prédios e ainda assim sempre repleta de automóveis estacionados, cortada por um cruzamento (entre outros) inventado à socapa e sem visibilidade. Por ela circulam, veículos pesados de mercadorias, de transporte, autocarros, automóveis ligeiros, seres humanos adultos e crianças a caminho da escola, cães e gatos e bicicletas e motorizadas…
Não sei como se passou mas esqueci-me do Sebald na mochila juntamente com as bolachas. Salvou-se uma banana, e enquanto caminhava recordava-me desta zona de Lisboa (Olivais e também Moscavide), que fazia fronteira imaginária com Loures (Sacavém), onde agora se espraia o Parque das Nações, antes de 1998. Fisicamente subsiste uma ideia sólida de mudança. Tudo de observação imediata. Todavia, ocorrem-me - num conluio de devaneios – vários pensamentos disformes, e a cada passo estremeço numa dúvida que sobe às árvores: Parque das nações?
Voltaremos.
Vindo de Avelãs de Caminho (nome inesquecível), empanturro