O seu gesto constituía uma maneira subtil de não esquecer que também se havia de transformar em pó. (Melville)

domingo, 17 de abril de 2011

Sonhos a jacto

Costa do Valado (Oliveirinha), Aveiro (14-04-11)

Costa do Valado é uma estrada rua, cingida por algumas indústrias, habitações, campos e a sempre presente bomba de gasolina. Costa do Valado, presume-se, já terá sido uma igreja com a sua praça, aí mesmo onde começa a rua direita que nunca se sabe onde acaba; aí mesmo em frente ao actual edifício dos correios, ao lado do mais recente lugar social das nossas dores: a farmácia.

Fiquei sem saber se aquele avião a jacto na publicidade antiga junto à igreja representaria - ou se alguma vez terá representado - um lugar diferente.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Morte ao Sol

Mosteiro de Leça do Balio (13-04-11)

É claro que já sabíamos da presença da Super Bock em Leça do Balio. Entretanto, passagens antigas denunciavam espaços cognitivos interessantes, mesmo enfaixados em ideias preconcebidas. O Mosteiro de Leça do Balio desmarca-se dos nossos entretantos: belíssimo na sua simplicidade antiga (com alguns dentes postiços) acolhe-nos na sua rosácea respeitável com o sol a tiracolo. E ficamos logo aí, espantados pela porta fechada e um olhar circundante que se perde no agradecimento. Dá-se o caso que mesmo sem sol teríamos ficado à espreita.

domingo, 10 de abril de 2011

Campo Santo*

Rua da Alegria, Porto (04-04-11)

Às vezes perco-me pelas ruas, e é-me sempre difícil voltar à tona. Não é necessário cartografar todos os momentos, mas penso, julgo que como W.G. Sebald, que precisamos de um presente com memória e de visitar a vida de vez em quando.

* Título retirado de um livro, ou melhor, de um conjunto de textos, de W.G.Sebald, que devem aliás o seu nome a um desses textos.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O poço da morte

Concelho de Águeda, (Março 2011)

Recordamo-nos da JAE, que entretanto terá mudado de nome. O caminho, a descer, sempre encerrou o mesmo modelo de desenvolvimento(?), ideal para cowboys no asfalto.

Assim vai o nosso país: decrépito e em inclinação inexorável.

sábado, 2 de abril de 2011

E agora qual é o plano?

Construção dos acessos ao novo Hospital de Braga, zona do Braga Parque, São Victor, Braga (02-04-11)

Primeiro era o hipermercado - a anteceder a urbanização. Depois acudiram mais prédios. Depois ainda, mais prédios a ocuparem os espaços prometidos para o estacionamento e os tais jardins que nunca chegaram. Entretanto chegou mesmo foi o centro comercial precedendo mais prédios e a circular com as suas rotundas. Tudo isto sem qualquer hierarquia de vias, passeios, bermas ou praças. Enfim, após o repasto, caiu do céu um tal retail parque, sem que ninguém se lembrasse dos acessos. Finalmente, chega-nos o hospital, lá bem no cimo, como os antigos conventos, talvez para estar mais próximo dos deuses. E constroem-se no meio, ou melhor, por cima disto tudo os acessos necessários. Bastaria apenas um passeio matinal, por exemplo, pela rua Quinta da Armada, para perceber a amálgama alucinada que infesta toda esta área: rua sem passeios, estreita, muralhada literalmente por casas e prédios e ainda assim sempre repleta de automóveis estacionados, cortada por um cruzamento (entre outros) inventado à socapa e sem visibilidade. Por ela circulam, veículos pesados de mercadorias, de transporte, autocarros, automóveis ligeiros, seres humanos adultos e crianças a caminho da escola, cães e gatos e bicicletas e motorizadas…

quinta-feira, 31 de março de 2011

A minha boca seca e sem metáforas

Parque das Nações, Lisboa (30-03-11)

Não sei como se passou mas esqueci-me do Sebald na mochila juntamente com as bolachas. Salvou-se uma banana, e enquanto caminhava recordava-me desta zona de Lisboa (Olivais e também Moscavide), que fazia fronteira imaginária com Loures (Sacavém), onde agora se espraia o Parque das Nações, antes de 1998. Fisicamente subsiste uma ideia sólida de mudança. Tudo de observação imediata. Todavia, ocorrem-me - num conluio de devaneios – vários pensamentos disformes, e a cada passo estremeço numa dúvida que sobe às árvores: Parque das nações?

Voltaremos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Num espaço tremendo

Aguada de Baixo, Águeda (29-03-11)

Vindo de Avelãs de Caminho (nome inesquecível), empanturro em Aguada Este (de Baixo). Virei. Apenas uma curva e nada se esquece.

sábado, 26 de março de 2011

Sem saída

Baguim do Monte, Gondomar (24-03-11)

Ali jaz um frigorífico, talvez para nos recordar os gloriosos tempos dos depósitos de electrodomésticos decrépitos nas matas. Atrás de nós, sabe-se que existe uma pequena zona industrial perdida. À frente um corredor habitacional que parece caído de repente do espaço. Rodeando-nos, matas de eucaliptos, ou melhor, pequenos tufos de árvores entre paralelepípedos. E todo desagua num caminho decrépito. Baguim do Monte parece que faz parte de Rio Tinto, o qual parece que faz parte de Gondomar. Tudo junto, é um concelho retalhado e cosido conforme os desvarios e conveniências de quem não sabe que também está de passagem.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Plano inclinado ou...

Vindo de Oliveira de Azeméis, talvez já em São João da Madeira, (23-03-11)

Em cada momento o anterior. Um país eternamente de passagem, rumo ao abismo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Na Primavera substituir os pulmões por dois grossos volumes gramaticais

Rua de Camões, Brito, Guimarães (22-03-11)

Sem conseguir pensar em qualquer conspiração de idiotas que nos governe, incluo uma passagem pela rua do senhor Camões, sem grande convicção que não seja a do momento. Brito, espelha-se em Guimarães, adolescente velho e rural a amadurecer entre novos equipamentos entretidos em estórias onde se remata uma história. Além, parece que fica o Espaço Guimarães, que pena, dizem-nos, ser já Silvares. Queria dizer que não importa, que não se nota sequer, mas acho que já vou tarde para desmanchar fronteiras imaginárias.

domingo, 20 de março de 2011

Arrastando-se naquela tarde sem rasgo

Alameda Padre Manuel Simões, Vila Nova de Famalicão (18-03-11)

Ali mesmo ao lado fica a Casa das Artes. À sua frente uma fiada de prédios novos amuralha a tal Alameda. Segue-se e talvez se encontrem logo campos, baldios, carros. Famalicão, cidade nova, sempre me intrigou: sente-se que algo palpita. Mas a sua fealdade corpórea, a sua estrutura urbana e concelhia completamente desconexa deixa-nos confundidos. Nada ali parece ter um real começo e um fim.

sábado, 19 de março de 2011

Enlevada ruína

Ponte românica(?), num afluente, segundo creio, do Vouga, Concelho de Águeda (18-03-11)


Ponte(s) sobre o Rio Vouga, Concelho de Águeda (18-03-11)
De passagem repetida, porque nem sempre as pontes nos levam para outro lado, dou por mim a pensar que o nosso país é bipolar: ora nos assombra sem qualquer melindre, como acima, ainda que por pouco tempo, ora nos entristece com espaços profundamente desconexos e disformes, desenraizados de qualquer conjunto. Estes ganham todo o terreno. Como diria um amigo meu, “ainda assim, prefiro as enlevadas ruínas”.

domingo, 13 de março de 2011

Restos de 2010: a alegoria do património *

Bath, Sul de Inglaterra, Património da Humanidade (Julho de 2011)

Bath, olhando para baixo, (Julho 2010)

Bath é um local postiço, onde até se paga para entrar em certos jardins. O turismo massificado com máquina a tiracolo associado ao revivescer fantasmático, corrói o espírito de qualquer viajante que queira passear-se pelas suas ruas e deitar-se à sombra das suas magníficas e gigantescas árvores. Entretanto, antes disso andaram por lá os Romanos, a banhos. E depois, após um interregno em que até o banho das quartas terá sido abolido, voltaram os banhos a sério na época Georgiana, os spas e as brincadeiras junto à piscina. Desse tempo ficaram um conjunto magnífico de edifícios, que lhe conferem uma unidade arquitectónica interessante, resultante obviamente de uma planificação de conjunto. A aristocracia e a burguesia (que prosperava) devem ter agradecido.

* “Alegoria do Património”, também é uma obra de Françoise Choay, Edições 70.

terça-feira, 8 de março de 2011

Terça de Carnaval

Rua D. António Barroso, Barcelos,  cliché não assinado, in Barcellos Revista 1910

Gosto de pensar, como Italo Calvino que “ a cidade não conta o seu passado” antes o contém “como as linhas da mão”. 

Ainda hoje esta rua se denomina D. António Barroso, mas toda a gente a conhece como Rua Direita.

sábado, 5 de março de 2011

Restos de 2010: amanhecer

São Victor, Braga (2010)

Recordo-o longinquamente como um amanhecer difícil cheio de beleza. A caminho do pão, mas posso estar equivocado…claro.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cada vez mais andarilho de si próprio

Louro, Famalicão (04-03-11)

Ali, a conjecturada cidade. E à volta num caos de expectativas, a sobra. Dá-se o caso de nada crescer de novo rodeando a bomba de gasolina: fábricas avulso que agora se denominam empresas; casas imaginadas por cada qual; campos ao desbarato cuja fronteira de vinhas nos enche o copo. E uma fogueira para queimar tudo. Antes isso.

terça-feira, 1 de março de 2011

Faca na liga

São Felix da Marinha - ou Granja - (01-03-11)

Vindo de muito perto da Rua da Quinta do Facas, por caminhos travessos cheguei, numa passagem sem rum que o valha, perto do mar. São Félix da Marinha, ou mesmo a Granja, desencaminharam o meu trilho (por momentos) rumo ao Porto. Avizinham-se prédios mas, entre a devassa, muitas árvores e casas de várias épocas escoltam a passagem; livros e filmes, passando da Agustina ao Oliveira a pente fino, rendilham o lugar, onde a enciclopédia social medeia cada impressão recolhida. Nada como a quinta do facas.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Sem musa ou desdém por essa papoila dos inválidos

Algures junto à rua Dr. António Bernardino de Almeida, Porto, Fevereiro 2011

Ao chegarmos à rua Dr. António Bernardino de Almeida, espreitamos muitos edifícios, nem que seja de passagem. Toda a gente sabe. Eu gosto de árvores à contra luz, insinuando-se como hematomas na paisagem e mesmo assim projectando-se para outros elementos anexos a ela: casas velhas e barracos vivaços entre sebes, pequenos muros, mesmo ao lado do (des)conhecimento das escolas. Basta saltar a cerca.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Avisto-me sem novidades técnicas

Da Estrada de São Bernardo, Aveiro (25-02-11)

Nevoeiro matinal com sabor a mar. Pelo menos pareceu-me. Aveiro, assim de soslaio, merecerá várias investidas. Recordo-me de lá passar várias vezes de comboio, muitas luas atrás, com um amigo meu a debitar cenas sobre fenómenos físicos entre outros devaneios estimulantes, enquanto absorvíamos o aroma a Cacia. De repente, surgia a estação e, além, antigas fábricas assimilavam a paisagem com tijolos de burro.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Espantava-se com as corridas para atravessar a rua

Albergaria-a-Velha, (22-02-11)

Albergaria-a-Velha certamente que é uma passagem. Desde logo para quem circula de autocarro para o interior, mas não o será menos, se nos integrarmos no seu interior de pequenas veias de circulação acanhadas de carros, casas baixas a orientar o fluxo, e um centro que não desacredita o restante. A cada passo, a roupagem não nos alumia outro país que não se conheça e, apesar de tudo, a escala sendo humana, conforta o visitante apressado.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

As traseiras

Mealhada, (22-02-11)

24h sem internet caseira a lembrar-nos os nossos vícios mais frívolos. E aqui, por exemplo, nas traseiras de qualquer coisa, poderemos imaginar perto a Avenida da Restauração, com os seus objectos identificáveis a publicitar o leitão dos nossos devaneios. Sucede que, algures, um parque intercede pelos humanos que lá caminham ou correm, sabe-se lá bem para onde, podendo(-se) claramente observar os leitões em modorras publicitárias mais ou menos do caraças. Sinto-me sempre perdido nas rotundas, mas retenho a norma inflexível da viagem.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Um rosto de pedra assoma e mais além cresce

Leça da Palmeira, (Fevereiro 2011)

E o mais interessante em Leça da Palmeira ou Matosinhos é esse estranho convívio - que nos parece ainda assim - forçado entre o novo e o antigo, o que não quer necessariamente dizer entre o moderno e o velho. Simplesmente, estes coabitam sem grande sentido de conjunto, relativizando-se mutuamente, até porque ali ao lado está o mar, o qual simplesmente prevalece.