O seu gesto constituía uma maneira subtil de não esquecer que também se havia de transformar em pó. (Melville)

terça-feira, 22 de março de 2011

Na Primavera substituir os pulmões por dois grossos volumes gramaticais

Rua de Camões, Brito, Guimarães (22-03-11)

Sem conseguir pensar em qualquer conspiração de idiotas que nos governe, incluo uma passagem pela rua do senhor Camões, sem grande convicção que não seja a do momento. Brito, espelha-se em Guimarães, adolescente velho e rural a amadurecer entre novos equipamentos entretidos em estórias onde se remata uma história. Além, parece que fica o Espaço Guimarães, que pena, dizem-nos, ser já Silvares. Queria dizer que não importa, que não se nota sequer, mas acho que já vou tarde para desmanchar fronteiras imaginárias.

domingo, 20 de março de 2011

Arrastando-se naquela tarde sem rasgo

Alameda Padre Manuel Simões, Vila Nova de Famalicão (18-03-11)

Ali mesmo ao lado fica a Casa das Artes. À sua frente uma fiada de prédios novos amuralha a tal Alameda. Segue-se e talvez se encontrem logo campos, baldios, carros. Famalicão, cidade nova, sempre me intrigou: sente-se que algo palpita. Mas a sua fealdade corpórea, a sua estrutura urbana e concelhia completamente desconexa deixa-nos confundidos. Nada ali parece ter um real começo e um fim.

sábado, 19 de março de 2011

Enlevada ruína

Ponte românica(?), num afluente, segundo creio, do Vouga, Concelho de Águeda (18-03-11)


Ponte(s) sobre o Rio Vouga, Concelho de Águeda (18-03-11)
De passagem repetida, porque nem sempre as pontes nos levam para outro lado, dou por mim a pensar que o nosso país é bipolar: ora nos assombra sem qualquer melindre, como acima, ainda que por pouco tempo, ora nos entristece com espaços profundamente desconexos e disformes, desenraizados de qualquer conjunto. Estes ganham todo o terreno. Como diria um amigo meu, “ainda assim, prefiro as enlevadas ruínas”.

domingo, 13 de março de 2011

Restos de 2010: a alegoria do património *

Bath, Sul de Inglaterra, Património da Humanidade (Julho de 2011)

Bath, olhando para baixo, (Julho 2010)

Bath é um local postiço, onde até se paga para entrar em certos jardins. O turismo massificado com máquina a tiracolo associado ao revivescer fantasmático, corrói o espírito de qualquer viajante que queira passear-se pelas suas ruas e deitar-se à sombra das suas magníficas e gigantescas árvores. Entretanto, antes disso andaram por lá os Romanos, a banhos. E depois, após um interregno em que até o banho das quartas terá sido abolido, voltaram os banhos a sério na época Georgiana, os spas e as brincadeiras junto à piscina. Desse tempo ficaram um conjunto magnífico de edifícios, que lhe conferem uma unidade arquitectónica interessante, resultante obviamente de uma planificação de conjunto. A aristocracia e a burguesia (que prosperava) devem ter agradecido.

* “Alegoria do Património”, também é uma obra de Françoise Choay, Edições 70.

terça-feira, 8 de março de 2011

Terça de Carnaval

Rua D. António Barroso, Barcelos,  cliché não assinado, in Barcellos Revista 1910

Gosto de pensar, como Italo Calvino que “ a cidade não conta o seu passado” antes o contém “como as linhas da mão”. 

Ainda hoje esta rua se denomina D. António Barroso, mas toda a gente a conhece como Rua Direita.

sábado, 5 de março de 2011

Restos de 2010: amanhecer

São Victor, Braga (2010)

Recordo-o longinquamente como um amanhecer difícil cheio de beleza. A caminho do pão, mas posso estar equivocado…claro.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cada vez mais andarilho de si próprio

Louro, Famalicão (04-03-11)

Ali, a conjecturada cidade. E à volta num caos de expectativas, a sobra. Dá-se o caso de nada crescer de novo rodeando a bomba de gasolina: fábricas avulso que agora se denominam empresas; casas imaginadas por cada qual; campos ao desbarato cuja fronteira de vinhas nos enche o copo. E uma fogueira para queimar tudo. Antes isso.

terça-feira, 1 de março de 2011

Faca na liga

São Felix da Marinha - ou Granja - (01-03-11)

Vindo de muito perto da Rua da Quinta do Facas, por caminhos travessos cheguei, numa passagem sem rum que o valha, perto do mar. São Félix da Marinha, ou mesmo a Granja, desencaminharam o meu trilho (por momentos) rumo ao Porto. Avizinham-se prédios mas, entre a devassa, muitas árvores e casas de várias épocas escoltam a passagem; livros e filmes, passando da Agustina ao Oliveira a pente fino, rendilham o lugar, onde a enciclopédia social medeia cada impressão recolhida. Nada como a quinta do facas.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Sem musa ou desdém por essa papoila dos inválidos

Algures junto à rua Dr. António Bernardino de Almeida, Porto, Fevereiro 2011

Ao chegarmos à rua Dr. António Bernardino de Almeida, espreitamos muitos edifícios, nem que seja de passagem. Toda a gente sabe. Eu gosto de árvores à contra luz, insinuando-se como hematomas na paisagem e mesmo assim projectando-se para outros elementos anexos a ela: casas velhas e barracos vivaços entre sebes, pequenos muros, mesmo ao lado do (des)conhecimento das escolas. Basta saltar a cerca.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Avisto-me sem novidades técnicas

Da Estrada de São Bernardo, Aveiro (25-02-11)

Nevoeiro matinal com sabor a mar. Pelo menos pareceu-me. Aveiro, assim de soslaio, merecerá várias investidas. Recordo-me de lá passar várias vezes de comboio, muitas luas atrás, com um amigo meu a debitar cenas sobre fenómenos físicos entre outros devaneios estimulantes, enquanto absorvíamos o aroma a Cacia. De repente, surgia a estação e, além, antigas fábricas assimilavam a paisagem com tijolos de burro.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Espantava-se com as corridas para atravessar a rua

Albergaria-a-Velha, (22-02-11)

Albergaria-a-Velha certamente que é uma passagem. Desde logo para quem circula de autocarro para o interior, mas não o será menos, se nos integrarmos no seu interior de pequenas veias de circulação acanhadas de carros, casas baixas a orientar o fluxo, e um centro que não desacredita o restante. A cada passo, a roupagem não nos alumia outro país que não se conheça e, apesar de tudo, a escala sendo humana, conforta o visitante apressado.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

As traseiras

Mealhada, (22-02-11)

24h sem internet caseira a lembrar-nos os nossos vícios mais frívolos. E aqui, por exemplo, nas traseiras de qualquer coisa, poderemos imaginar perto a Avenida da Restauração, com os seus objectos identificáveis a publicitar o leitão dos nossos devaneios. Sucede que, algures, um parque intercede pelos humanos que lá caminham ou correm, sabe-se lá bem para onde, podendo(-se) claramente observar os leitões em modorras publicitárias mais ou menos do caraças. Sinto-me sempre perdido nas rotundas, mas retenho a norma inflexível da viagem.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Um rosto de pedra assoma e mais além cresce

Leça da Palmeira, (Fevereiro 2011)

E o mais interessante em Leça da Palmeira ou Matosinhos é esse estranho convívio - que nos parece ainda assim - forçado entre o novo e o antigo, o que não quer necessariamente dizer entre o moderno e o velho. Simplesmente, estes coabitam sem grande sentido de conjunto, relativizando-se mutuamente, até porque ali ao lado está o mar, o qual simplesmente prevalece.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

E em todo o caso ao chegar chovia

Junto ao parque biológico, Avintes, (18-02-11)

Terei sido atormentando por movimentos que de ida e volta me recordaram a adolescência. E depois, depois, nem sequer procurei a broa de Avintes para acompanhar a memória de um frango de churrasco da Furna, com bichas intermináveis. Vindo de Leça e sabe–se lá mais de onde, exauri uns quantos pensamentos junto ao parque biológico de Avintes, mais conhecido como parque biológico de Gaia, mas aí, claramente, já só mastigava afazeres.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O caminho inexorável

Em viagem, algures

Em viagem, por vezes, tudo nos é arremessado num momento. A natureza, sem pejo, projecta-se indiferente aos nossos anseios, recordando-nos o caminho infalível até ao nada: a beleza da jornada.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Às segundas quase adormeço

Algures em Avioso S. Pedro, Maia, (14-02-11)

Pânico? Algures fica o ISMAI. O mais interessante é toda a área circundante: campos; urbanizações; estradas/ruas; e, claro, o metro. De passagem, lentamente absorvi a chuva nesta amálgama com todas as saídas e mais algumas. Ao certo, a manhã tornou-se enternecedora, quando me refugiei, por momentos, num gabinete de trabalho. Era segunda-feira de todas as dores.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ontem observando as "escadas para o céu"

Rua Dr. Roberto Alves, Santa Maria da Feira, (12-02-11)

Ao chegarmos à cidade, perto do centro histórico, podemos ler, escrito na fachada de um edifício, “Escadas Para o Céu”, recordando-nos, talvez, a vocação religiosa destas terras facilmente observável nos seus mosteiros, conventos e igrejas, e em não menor grau de importância, na sua doçaria. Lá em cima, num caminho, quem sabe, também para o céu, fica o castelo da Feira onde parece que se paga 3 euros por uma visita. Este cruzar religioso e militar, assenta num outro cruzar bem antigo, de caminhos e de passagem, facto que ainda hoje se pode aferir. O lugar, está acompanhado de perto pelo Europarque e Visionarium, por exemplo, e até já teve direito a música, não se tratando, por acaso, do apropriado “Stairway To Heaven” dos Led Zeppelin, mas sim de um tema do senhor Devendra Banhart, que já tocou nestas paragens e que é mais ou menos assim:

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Controle remoto

Hora do almoço, Bristol, Inglaterra (Julho, 2010)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Perto do mar

Rua Óscar da Silva, Leça da Palmeira - antiga conserveira - (10-02-11)

Haverá uma certa beleza nisto tudo. Comi uma sandes a correr, já muito almoço tardio, perto da empresa Ramirez, a do atum da nossa imaginação, recordando-me que este povo de mundos sem mundo, é um pioneiro/artista da conservação, seja em enlatados, seja na salga/cura do bacalhau, entre outros. Falta-nos, talvez, um Melville (ou um Sebald, já agora) não apenas para contar a história, mas para vivê-la ou compreendê-la. Apesar disso, um desleixo de rapina preside aos nossos espaços, antigos e novos, notório a cada trecho e preenchendo cada interstício até ao limite do desatino.

A rua Óscar da Silva em Leça da Palmeira/Parafita, é um bom exemplo disso.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Restos de interior a fechar nos mercados



Nelas, Outubro de 2010

Antes de mais, recordo um fim-de-semana [muito] longínquo: borrego assado em fogão a lenha com direito a miolos à moda da casa amiga; licor de qualquer coisa, entre vários licores. E Joy Division, algures num bar rasca, com jukebox a mediar a noute. Ah!, e uma feira regional, com direito a prova de vinhos.

Desta passagem posterior, a actualizar, retive alguns destroços, derrapagens de um tempo cada vez mais moderno e solitário.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Estrangeiro


Águeda, (08-02-11)

Quando parei junto à ponte vindo, por um imprevisto sóbrio, de Avintes, enamorei-me por uma casa que julgo ser do século XIX. Apeteceu-me pular para dentro do seu espaço arruinado e ao mesmo tempo infalível na sua memória aparente, qual Meursault supostamente existencial do “O Estrangeiro”, de Camus, quando este se arroja para o caminhão em andamento. Por acaso estava sol, mas não matei ninguém.

E segui para Sul…

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Viagem ao centro de um vidrão


objecto identificado como sendo de barro e de dimensões razoáveis, São Victor, Braga (06-02-11)

Carecemos, com efeito, de um Carnão, para atirar lá para dentro alguns nossos correligionários, ou apenas deixá-los à porta…